🎣 Pesqueiras do Tejo em Ortiga
As Pesqueiras do Tejo, localizadas nas margens de Ortiga, constituem raros exemplos de uma arquitetura paisagística singular, resultante da secular relação entre as populações locais e o Rio Tejo. Construídas com recurso ao xisto abundante nas margens do rio e a engenhosas técnicas tradicionais, estas estruturas representam um dos mais importantes testemunhos da identidade ribeirinha e piscatória do concelho de Mação.
Enquanto património secular de excecional valor histórico e cultural, as pesqueiras justificam a continuidade dos estudos sobre as suas estruturas e sobre todo o património material e imaterial que lhes está associado. Este trabalho de investigação contribui para a sua salvaguarda, conservação, valorização e musealização a céu aberto, devolvendo à comunidade um legado fundamental para a compreensão da sua história, cultura e identidade.
O valor das pesqueiras ultrapassa a sua dimensão arquitetónica, evidenciando igualmente importantes componentes arqueológicas, etnográficas, didáticas, ecológicas e paisagísticas. A sua valorização deve integrar não apenas o estudo das próprias estruturas, mas também o conjunto de dinâmicas culturais associadas, incluindo as técnicas tradicionais de construção das pesqueiras e dos barcos "picaretos", os métodos de pesca praticados no Tejo, a gastronomia ligada à pesca fluvial, os falares e expressões populares relacionados com o rio, os hábitos e modos de vida das comunidades ribeirinhas, bem como a riqueza da fauna e flora que caracterizava este troço do Tejo.
As pesqueiras representam um património cultural profundamente ligado à intensa exploração piscícola do rio pelas populações de Ortiga. O saber e o engenho envolvidos na sua construção demonstram um conhecimento aprofundado das correntes, remansos e comportamentos do rio, permitindo orientar cada estrutura para maximizar a captura de peixe.
Estas construções destinavam-se à pesca através da utilização de artes tradicionais como a varela, a savara e o redão. Neste último caso, a pesqueira servia de apoio ao barco denominado picareto, equipado com a verga e o sarinho necessários a esta técnica de pesca.
Ao contrário do que sucedia noutros rios portugueses, as pesqueiras do Tejo não tinham como objetivo interromper a navegação. A sua função consistia em criar zonas de corrente mais branda, designadas por remansos, atraindo as espécies piscícolas que procuravam evitar a forte corrente do canal principal do rio durante os seus movimentos migratórios. Desta forma, as pesqueiras criavam condições ideais para a captura do peixe, funcionando como verdadeiras armadilhas naturais.
A existência destas estruturas remonta, pelo menos, ao século XVI. Durante o projeto filipino destinado a tornar o Rio Tejo navegável, existem já referências à construção de pesqueiras utilizando a técnica local das "pedras ao alto", característica exclusiva deste troço do rio. A sua importância económica encontra-se igualmente documentada no início do século XVII, através de uma petição apresentada pelos proprietários das pesqueiras ao Rei Filipe II, datada de 30 de agosto de 1602.
Atualmente, entre a Barragem de Belver e a Foz do Rio Frio, na margem direita do Rio Tejo, encontram-se identificadas 28 pesqueiras, em diferentes estados de conservação, formando um autêntico museu ao ar livre e um dos mais relevantes conjuntos patrimoniais associados à pesca tradicional fluvial em Portugal.
📍 Pesqueiras do Tejo entre a Barragem de Belver e a Foz do Rio Frio
- Nova
- Barbum
- Chaparreira
- Monterva
- Caetana
- Várzea Longa
- Rabo Longo
- Caiada
- Nicola
- Boca da Lagoa
- Tagarela
- Cristóvão
- Mourouço de Cima
- Mourouço Fundeiro
- Boavista
- Caracol
- Cantarrão
- Barreira
- Filipa
- Abertas
- Piçarrinha
- Piçarreira
- Mingalhão
- Cabreira
- Castanho
- Salgada
- Caldeira
- Penedo Branco
🌊🎣 As Pesqueiras do Tejo constituem um património único da vila de Ortiga, testemunhando séculos de convivência harmoniosa entre o Homem e o rio, preservando memórias, saberes e tradições que continuam a marcar a identidade cultural das gentes ribeirinhas do concelho de Mação.
Fonte: Dra. Sara Cura e Dr. João Filipe - Museologia de Mação.